O Impacto da Inteligência Artificial e o Futuro das Boutiques de M&A
Por: Alexandre Pontes – Head de M&A e TAX
No início deste ano, fui questionado, por alguns empresários, sobre um tema que tem gerado muitas discussões no mercado: as boutiques de M&A (Fusões e Aquisições) estão com os dias contados devido ao crescimento das plataformas de M&A impulsionadas pela Inteligência Artificial (IA)? Como sócio fundador da C&M Advisors, uma boutique especializada em M&A, senti que essa dúvida merecia uma análise mais profunda.
Minha resposta foi clara e direta: não, as boutiques de M&A não desaparecerão a médio e longo prazo. A verdade é que estamos vivendo uma hibridização do setor, em que a IA pode transformar significativamente o trabalho operacional, mas as boutiques continuarão a desempenhar um papel essencial nas estratégias complexas e nas negociações humanas que definem o sucesso de uma transação.
Foi com esse pensamento em mente que resolvi escrever este artigo, para explorar como as boutiques de M&A podem não apenas sobreviver, mas também se potencializar por meio da IA mantendo seu diferencial estratégico e humano em um mercado que, embora cada vez mais tecnológico, ainda demanda a percepção humana nas decisões mais críticas.
Por que as Boutiques de M&A Não Serão Substituídas?
Limitações da IA em Processos de M&A
Embora a Inteligência Artificial seja excelente em reconhecimento de padrões e em automação de processos, ela ainda enfrenta limitações em áreas cruciais para o mercado de M&A. Testes práticos de algoritmos de IA em processos de venda demonstraram uma falha fundamental: a IA pode facilmente ignorar compradores essenciais ou oportunidades de mercado que não se enquadram em padrões rígidos.
As transações de M&A exigem mais do que uma aplicação de algoritmos. Elas envolvem criatividade, flexibilidade e a habilidade de lidar com situações imprevisíveis. Muitas vezes, são os processos não convencionais que geram as melhores oportunidades. A IA, embora eficiente, não possui a capacidade de realizar negociações criativas ou de lidar com a complexidade humana das transações.
O Valor da Conexão Humana
M&A é, acima de tudo, sobre confiar nas pessoas e entender as intenções e emoções dos envolvidos. A IA pode oferecer uma análise robusta, mas a capacidade de ler o ambiente, captar nuances emocionais e “sentir o momento do mercado” são habilidades exclusivas dos seres humanos. Embora a IA possa dar suporte na tomada de decisão, as melhores transações nascem de relacionamentos genuínos e da capacidade de negociar de forma personalizada, algo que ainda não pode ser replicado por algoritmos.
Em negociações de alto nível, o toque humano é insubstituível. As decisões de alto impacto são tomadas não apenas com base em dados, mas também com a intuição e o entendimento profundo das pessoas envolvidas. As boutiques de M&A são especialistas em construir e manter relações de confiança, o que ainda é um ponto fraco das máquinas.
Decisões Estratégicas vs. Operacionais
A IA tem se destacado na camada operacional, ajudando a automatizar a análise de dados e processos, o que resulta em maior eficiência e agilidade. No entanto, as decisões estratégicas continuam a depender da experiência humana. Executivos e CEOs de grandes empresas percebem a IA como uma ferramenta de eficiência, mas não como um substituto para o pensamento estratégico.
David Solomon, CEO do Goldman Sachs, sintetizou bem essa dinâmica ao afirmar:
“AI can now draft 95% of an S‑1 IPO prospectus in minutes. The last 5% now matters because the rest is now a commodity.”
Essa frase destaca a realidade do mercado atual: a IA pode acelerar a execução das tarefas repetitivas e operacionais, mas o diferencial está nos 5% finais — onde a criatividade e a estratégia são decisivas. A IA ajuda a criar a base, mas os profissionais de M&A ainda são os responsáveis por tomar decisões estratégicas e por liderar as negociações mais complexas.
A Emergência da Boutique 2.0
As boutiques de M&A que sobreviverão serão aquelas que souberem integrar tecnologia ao seu trabalho sem perder o foco nas decisões estratégicas e no toque humano. As tecnologias de IA podem ser usadas para potencializar o que já é feito de forma eficiente, mas o valor da personalização e da experiência humana continuará sendo o que diferencia essas boutiques no mercado.
Aceleração da Due Diligence
A Due Diligence, uma das etapas mais críticas de qualquer transação de M&A, pode ser drasticamente acelerada com o uso de IA. Automatizar a análise de documentos e a identificação de riscos fiscais, trabalhistas e legais permite que as equipes se concentrem em questões mais complexas e em áreas de maior valor estratégico. Isso não só economiza tempo, mas também aumenta a precisão e a confiabilidade das avaliações.
Originação Inteligente
Com IA, as boutiques podem substituir as tradicionais listas de alvos de M&A por prospecções mais inteligentes e dinâmicas, capazes de identificar oportunidades de forma mais rápida e precisa. A IA permite que as boutiques acessem novos mercados, analisem o comportamento do setor e descubram novas tendências de maneira ágil, oferecendo uma vantagem competitiva.
Análise de Mercado e Tendências
A análise de mercado será mais eficiente com o uso de IA, permitindo que as boutiques de M&A entendam o cenário econômico e as tendências setoriais em tempo real. Isso vai reduzir drasticamente o tempo necessário para analisar dados de mercado e proporcionar insights mais rápidos e acertados.
A Arte e a Ciência em M&A
O mercado de Fusões e Aquisições caminha para um modelo híbrido onde a IA cuida da ciência — do processamento de dados, da triagem e da automação de processos — enquanto as boutiques de M&A cuidam da arte: da negociação, da estratégia e do relacionamento com clientes. Esse novo modelo cria uma sinergia entre tecnologia e inteligência humana, tornando o mercado mais eficiente, mas ainda profundamente humano.
No final, as boutiques de M&A não serão substituídas pela IA. Em vez disso, serão potencializadas pela tecnologia. A IA permitirá que essas boutiques se concentrem em tarefas mais estratégicas, deixando o trabalho repetitivo e operacional para as máquinas. As transações de maior valor, especialmente as mais complexas, continuarão a exigir juízo estratégico, criatividade e relações humanas — elementos que a IA ainda não pode substituir.

